Era como se a cadeira no outro lado da mesa estivesse vazia. A pessoa estava lá, na frente dele, mas agia como se não estivesse. Havia um tempo, pensava ele, em que tudo era dividido entre os dois. Agora, haviam duas garrafas de vinho. Dois cálices. Duas cadeiras. E não mais a pessoa parecia ir na mesma direção que ele. Se antes a compatibilidade entre os dois era tal que nenhum podia fazer algo sem que o outro fizesse exatamente o mesmo, agora a existência de um para o outro parecia estar sendo questionada. Mas se ele, por um lado, demonstrava estar frustrado com a situação, a pessoa parecia simplesmente não se importar. Ria quando ele estava irritado. Olhava para os lados quando ele exigia atenção. Parecia ainda mais alheia às suas palavras do que nos dias anteriores. Finalmente, ele se levantou bruscamente e gritou. Gritou diversas vezes a mesma frase. A pessoa não demonstrou nenhuma reação imediata. Apenas esboçou um meio sorriso, fez um gesto de despedida e desapareceu. Estático, ele não acreditou no que acabara de acontecer. Olhou para a cadeira, então realmente vazia, e piscou os olhos, na esperança da pessoa reaparecer. Até que, não suportando mais o sentimento da perda, arremessou sua cadeira contra a outra. E o vinho, o cálice, a vela e a cadeira que estavam no lado oposto da mesa se espalharam, com um estrondo, em fragmentos brilhantes, que distribuíam a luz em uma face zombeteira de um reflexo que deixara de existir.