Tendo a existência um objetivo
Desconsideram-se padrões morais
A fim de evitar a sina de iguais
Não estando em si próprio cativo
Mas se pecado é o que me atormenta
Restam apenas meus egos feridos
Trazendo suave aquém dos sentidos
Doce martírio que a mim representa
Resumo então o saber e a ânsia
Compactados na básica síntese
Da passividade e ignorância
E longe do óbvio torno-me crente
Pois sem a lógica resta-me antítese
Trivializada dentro da mente
domingo, dezembro 01, 2002
23:40 -
FIDELIDADE
(01/12/2002)
Calculou que a margem de erro era de aproximadamente seis minutos. Foi a primeira vez na vida, e provavelmente seria a única, em que encontrara uma aplicação prática para o que aprendeu nas aulas de estatística da faculdade. Sabia, porém, que estimativas nem sempre se aplicam à realidade de forma adequada, e por isso colocava-se em posição exatamente oito minutos antes da média.
Jamais se esquecia de apagar a luz; era o que faria se realmente estivesse utilizando o computador. As cortinas eram mantidas semi-abertas, com um razoável desleixo. Todo o restante do quarto era posicionado da mesma forma, meticulosamente casual. Não poderia haver, para quem olhasse de fora ou para quem entrasse no recinto, motivo algum para acreditar que algo era feito à parte da rotina. E, de fato, a partir do momento em que restavam aqueles exatos oito minutos, ninguém poderia possuir tal desconfiança apenas através da visão.
Na sua frente, o monitor brilhava com as cores de um jogo eletrônico, mas completamente fora de seu campo de visão. Este era inteiramente tomado, à exceção das cortinas quando havia muito vento, por uma das janelas do prédio vizinho. Mais especificamente, como jamais se permitia esquecer, a terceira da esquerda para a direita, no quinto andar. A luz estava apagada, fazendo a margem de erro, tão simples no papel, tornar-se horas de angústia.
Mas, como sempre, não demorava para o quarto brilhar, rosa, e um vulto surgir. O dela. Aos poucos, sem a necessidade de lentes ou câmeras, cada dobra das roupas, cada sinal do rosto, cada reflexo dos cabelos tornava-se claro e delineado. Ela usava calças pretas e camiseta rosa. As cores eram esperadas, provavelmente as favoritas, mas era mais comum contemplá-la de minissaia e regata. Não conseguiu disfarçar uma certa decepção, mas a perdoou.
Como uma gravação em câmera lenta, acompanhava passo a passo enquanto a menina se despia. Primeiro a calça, depois a camiseta. Ela passava alguns segundos apenas de roupa íntima, como se quisesse provocá-lo, antes de finalmente libertar-se. E o breve momento em que caminhasse na direção do banheiro, exibindo-se completamente nua na janela, tornaria-se mais uma memória a ser registrada, como as das noites anteriores.
Mas algo diferente aconteceu naquela vez. Talvez fossem as luzes da rua, talvez o monitor não estivesse com o brilho adequado. Ela o viu. Ela o encarou. O olhar era de medo, ou talvez desprezo. Distingüir sentimentos daquela distância não era tão fácil como descobrir a cor dos olhos. Mais intrigante ainda foi tentar saber qual dos dois fechou as cortinas mais rápido. Ou qual dos dois teve o impulso primeiro.
Suava frio. O que aconteceria? Seu esquema, tão perfeito na aparência, tinha falhas que só percebia naquele momento tão caótico. Deveria estar no terraço, pensou. Havia revelado a ela onde morava. Qual era seu quarto. O que fazia. Os pais dela poderiam investigá-lo. Estava provavelmente tão ou mais exposto quanto ela. Fechou os olhos, tentou acalmar-se, raciocinou. Não havia como ela saber que ele olhava diretamente para o apartamento dela. Ficou mais calmo. Se alguém perguntasse, ele negaria tudo e demonstraria indignação.
Nas noites seguintes, percebeu que ela não havia notificado ninguém de sua atitude. Havia feito algo muito pior. As cortinas não mais se abriam. Durante todo o intervalo, permaneciam fechadas. O brilho rosa tornara-se turvo. O vulto não mais ficava nítido. O relacionamento fora cortado. Provavelmente para sempre.
Perdera uma dependência. Não haviam outras. Mecanicamente, continuava a manter sua rotina de preparar-se para vê-la. Mas ela não voltava. Tentou então, como única forma de evitar a completa depressão, resgatar todas as memórias que havia registrado. A cada momento que fechava os olhos, ela estava lá. Com seus cabelos longos, olhos claros e corpo perfeito, esbelto. Seus lábios, seus seios, sua pele provavelmente tão macia quanto lisa. Haviam tantas memórias, tão detalhadas, que chegou a sentir um certo alívio. Mas ainda precisava contemplá-la. Jamais viveria somente de memórias, quando a fonte de sua existência estava tão próxima. Desde a fatídica data, jamais passara-se uma noite em que não derramasse pelo menos uma lágrima.
Então, ele finalmente a viu. Haviam se passado uma semana e três dias até as cortinas se abrirem novamente. Estava nervoso, tinha certo receio, mas era necessário ver. Ela estava usando uma roupa inédita. Um vestido longo transparente e, por baixo, uma lingerie vermelha. Como um anjo, ela sorria. Olhando diretamente para os olhos dele. O sorriso não era imaginário, como sua voz, mas claro, nítido, palpável. E o vestido, tão pouco adequado a uma menina de doze anos, e ao mesmo tempo tão lindo e deslumbrante, era a forma dela pedir desculpas por tê-lo feito esperar tanto tempo.
Ele tinha certeza que em todos os seus dezenove anos de vida, nunca havia recebido tamanha gentileza. Nem mesmo das namoradas, nem mesmo dos pais. E lamentava não poder comunicar-se com ela. Sentia por ela não poder vê-lo da mesma forma que ele a via. Queria de alguma forma expressar o que sentia. Desejava somente que ela soubesse que, durante todo o período em que desaparecera, ele jamais, em momento algum, havia cogitado procurar outra janela.