Diário

sábado, setembro 07, 2002

00:27 -

MINUTOS
(07/09/2002)

Tic... Tac... Tic... Tac... Joelhos chocando-se no chão...
Um dos tiros havia acertado a lâmpada, um alvo tão ironicamente pequeno. A fraca luz da lua através da janela semi-aberta não era suficiente para ele analisar situação tão súbita. Talvez inconscientemente agradecesse à bala que destruiu a iluminação, por tal visão atual ser menos explícita do que deveria. A penunbra felizmente o impedia de encarar olhares vazios de decepção, ou expressões pálidas de reprovação.
Tic... Tac... Tic... Tac... Dentes raspando uns nos outros...
Sentia-se culpado. Por ser o único a sobreviver. Por ser o único a viver. Em sua mente, as vozes de sua família apoiavam a culpa que ele mesmo já se atribuía. Pensava nas inúmeras maneiras que tinha, naquele momento, para impedir tamanha brutalidade. Era mais forte que aquela pessoa, ou pelo menos assim pensava. Mesmo se não fosse, sabia exatamente o que ela ia fazer. Como ia fazer. Quando ia fazer. E não tomou providências.
Tic... Tac... Tic... Tac... Lágrimas caindo em suas mãos...
Pouco a pouco a culpa dava lugar ao ódio. Ódio a aquele que a tanto tempo conhecia, em quem a tanto tempo confiava. Ódio por testemunhar uma tragédia perpetrada não por um louco desconhecido, mas por alguém que admirava e, porque não dizer, possivelmente amava. E novamente a culpa. Culpa por não ter enxergado, por não notar as sutilezas que agora lhe pareciam obviedades. Por não acreditar, e por isso não agir.
Tic... Tac... Tic... Tac... Rigor mortis se instalando...
De que valia tudo aquilo que ostentava até então? O vestido Chanel da mãe, o terno Armani do pai, ambos imediatamente desvalorizados pelo sangue. O acababento da parede, em mármore peruano, danificado além de qualquer conserto. Até mesmo o mordomo, diplomado e de alto nível, teria que ser descartado. Pior do que tudo, nunca mais haveria uma família para desfrutar com ele tais luxos exclusivos.
Tic... Tac... Tic... Tac... Sirenes... Gritos... Passos...
Ainda tinha alguns minutos para limpar as digitais da arma e ensaiar a expressão de pavor.

quinta-feira, setembro 05, 2002

23:15 -

INOCÊNCIA
(05/09/2002)

Seu nome não interessava nem para ele próprio, pois, a cada ano, algum acidente lhe valia um novo apelido, que não demorava para se espalhar por todo o morro. E ele, claro, não hesitava em aceitá-lo e a responder por tal, embora muitas vezes não compreendesse a razão do novo título, ou tampouco soubesse o significado da palavra. Apenas sabia que, se não respondesse, as pessoas brincariam menos com ele e o dia seria menos divertido. Não tinha idade para um raciocínio que fosse além disso.
Ainda assim, toda a vila admitia que a rotina seria bem pior sem a presença daquele garoto, que nunca parava de falar e de se mexer. O brilho constante em seus olhos às vezes fazia adultos se esquecerem da condição em que viviam. Mas, ao contrário do que pensavam, o menino não agia daquele jeito por ser verdadeiramente feliz, mas por querer ser. Era ingênuo devido a idade, claro, mas diante de tamanha miséria que havia a sua volta, inconscientemente sabia que animar-se além das expectativas seria a única maneira de não chorar. Daria tudo para viver em algum lugar onde as circunstâncias o fariam ser assim naturalmente.
Sob tal desejo, não compreendia porque seu pai, pessoa muito respeitada na vila, não lhe permitia tocar nos produtos que vendia. Sempre que o garoto perguntava sobre as atividades, seu pai, ligeiramente nervoso, explicava que vendia coisas que faziam as pessoas se sentirem melhor, ficarem mais contentes. Então porque seu próprio filho não podia tê-las? Será que ele não queria ver o próprio filho contente? Se apresssava a dizer que não, que amava o filho, mas que havia muitas pessoas ruins que desaprovavam o que ele fazia, e ele não queria que essas pessoas viessem atrás do filho.
Essa explicação jamais convencia o menino, que sempre tentava pegar um pouco escondido, mas nunca conseguia. E toda vez que era flagrado, a mãe o repreendia dizendo que Deus o castigaria. Sempre pensava como Deus poderia saber de algo se apenas ele e seus pais viviam em sua casa, mas costumava ouvir como resposta a frase "Não seja burro, menino!", vinda da senhora que morava no barraco vizinho, conhecida mais pela enorme quantidade de gatos que estavam sob seus cuidados. Ela dizia que Deus a tudo sabia, e a tudo tinha poder para fazer. Isso só trazia novas dúvidas para o garoto, que não entendia como ele permitia que as pessoas da vila vivessem naquelas condições. A velha dava de ombros e ria, completando que Deus só faria algo por aquele local se alguém pedisse pessoalmente. Ele nunca entendeu o motivo do riso, mas sabia que seria um dia a pessoa que falaria com Deus e faria a vila mudar.
Decidiu então falar com o pai. Seu pai era a pessoa mais conhecida do lugar, talvez por morar na maior casa ou por sempre falar coisas certas. Provavelmente certas, já que não havia quem discordasse. Como todos também conheciam Deus, fazia sentido que duas pessoas famosas se conhecessem pessoalmente, e que seu pai o poderia ajudar a falar com Ele. Mas antes que o garoto pudesse tocar no assunto naquela noite, Deus aparentemente se adiantou. Subitamente, as janelas seladas com madeira abriram-se num estouro. Luzes desconhecidas acenderam-se e piscaram. Assustado, o menino tentou acordar os pais, mas eles estavam dormindo muito profundamente. Tentou então fugir, esconder-se nos vizinhos, descobrir que brincadeira estranha era aquela. Mas, de repente, ouviu um estouro e foi de encontro ao chão sem tropeçar ou ser empurrado, como havia ocorrido nas outras vezes em que caiu. Sem saber porque, sua visão começou a escurecer e a embaçar.
Então, sob a meia-luz da janela recém-quebrada, o garoto contemplou Deus pela primeira vez. Posando imponente, como descrito por sua mãe, Ele usava farda e segurava aquele objeto pesado que os amigos de seu pai gostavam de mostrar. Sorrindo, o menino enfim concluiu que o nervosismo que tinham quando ele tentava brincar com aquilo ocorria porque ele estava sendo desrespeitoso para com a religião. Tentou levantar para pedir uma vida melhor, mas suas pernas tremiam, e não o obedeciam. Tentou apenas falar, mas um gosto úmido de cobre na boca não permitiu. "Não seja burro, menino!", parecia ouvir da dona dos gatos, embora ela provavelmente estivesse dormindo naquela hora, ao lembrar-se que Deus sabia tudo, sem que ele precissase pedir. Simplesmente fechou os olhos acreditando que Ele o tiraria daquela vida miserável.
E Deus o fez, pois não queria testemunhas.

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